Dezembro 15, 2008

Trabalho de fotojornalismo

O tema do trabalho do grupo era “São Paulo que não parece São Paulo”. Fui até o Parque Ecológico do Tietê, na Zona Leste, para tentar traduzir essa idéia. O resultado:

Parque Ecológico – 20 de novembro

Dezembro 10, 2008

Cidade catótica

Há quem diga que, por conter tantas culturas e identidades diferentes, São Paulo é uma cidade sem identidade. Pura bobagem. Tudo bem, é verdade que não há comida típica paulistana, nem música popular paulistana, nem folclore paulistano. Mas há — e isso ninguém pode nos tirar — um comportamento profundamente arraigado entre os habitantes de São Paulo, e que pode ser considerado a grande característica comum: o ato de tirar catota no trânsito.

Se você que lê estas linhas está agora ao volante, solicito encarecidamente que PARE DE LER e preste atenção na porra do trânsito. Caso contrário, peço que dê uma olhada para o lado da próxima vez que parar num semáforo. Arrisco dizer que há sete ou oito chances em dez de que seu vizinho de trânsito esteja com pelo menos a falangeta dentro de pelo menos uma narina. Uma colega gaúcha diz que os catoteiros foram seu maior choque ao trocar as ruas de Porto Alegre pelas da terra da garoa. Certa feita, disse a um sujeito de Nova Iorque que o povo de São Paulo era adepto do nose picking. Ele disse que isso era louvável. Só depois, quando o cara já tinha voltado para a civilização, me dei conta de que, graças à minha pronúncia maravilhosa, ele tinha entendido no speaking. Deve estar até hoje contando aos amigos sobre a admirável introspecção dos paulistanos.

Muito bem, alguns podem dizer , torcendo (ou cutucando) o nariz, que a sondagem dígito-nasal não é privilégio exclusivo dos paulistanos. É verdade. Mas pessoas de outras plagas são mais discretas: retiram-se da vista alheia para praticar o ato, ou pelo menos o fazem disfarçadamente, aproveitam aquela coçadinha no nariz e tal. Os motoristas paulistanos, por sua vez, catoteiam com empáfia, quase com orgulho. Deve ter alguma coisa a ver com a poluição, é verdade. Imagine a quantidade de fuligem que nos entra pelas narinas após uma hora e meia de tráfego intenso na Marginal Tietê. Aquela sujeira toda irrita as vias respiratórias, se mistura com o muco nasal e… Bom, acho que não preciso explicar em detalhes.

Não podemos, no entanto, botar a culpa somente no ar imundo da cidade. Eu diria que a causa maior é a relação que o paulistano tem com o carro. Para nós, o automóvel não é só um meio de transporte: é extensão de nosso lar, é nosso domínio, nosso habitat, nosso reino sobre quatro rodas. Sentimo-nos totalmente à vontade dentro de nossas máquinas: cantamos, batucamos no painel, falamos sozinhos, soltamos gases e — claro — catamos catota. O interior do carro nos dá a ilusão de privacidade, e é muito fácil esquecer que estamos cercados por vidro translúcido.

E assim, à vontade, vão os paulistanos catoteando pela vida. Uns são recicladores conscientes, e tratam de consumir imediatamente tudo o que tiram do nariz. Outros têm vocação para decorador, e distribuem suas catotas em belos padrões pelo painel do carro, no volante, no teto. Há aqueles que são tímidos e escondem seu produto sob o banco (se as lojas de carros usados dessem 10 reais de desconto por catota encontrada sob o banco do motorista, estariam todas falidas). Existem também aqueles desapegados, que se desfazem de suas bolinhas com um jeitoso piparote. E nem olham para trás.

Já prevejo a reação de alguns cidadãos indignados da metrópole, prontos a me atirarem pedras (ou catotas). Antes que o façam, porém, peço que reflitam por um momento. Finalmente nós, os paulistanos (que somos baianos, paranaenses, japoneses, portugueses, italianos, lituanos, coreanos, judeus, acreanos, libaneses), temos algo que nos une. Isso há de valer alguma coisa, não?

Dezembro 10, 2008

Fim de carreira

“É mais seguro”, elas diziam. “Os clientes são melhores”, argumentavam. “A concorrência é menor”, lembravam. Não tinha como dar errado, então ele cedeu. Estava empolgado com a descoberta do novo nicho em um mercado tão antigo e saturado.

“Putas filhas da puta”, é o pensamento com sabor de genealogia bíblica que lhe ocupa a mente agora, enquanto caminha sob a luz dos postes na praça vazia. Nos bons tempos, a João Mendes era um jardim e todas as flores eram dele. Ele, Zelão, clássico agente do amor profissional, tinha uma carreira para se orgulhar. No começo, anos 70, ostentava uma vasta cabeleira afro, estolas de pele, calças boca-de-sino listradas e justas, sapatos de plataforma, tudo inspirado pelos pimps gringos. Daquela época, guardava apenas a unha crescida e pontiaguda do mindinho esquerdo e seu código de honra: proteger as meninas, orientá-las e ganhar sua vida com base no respeito mútuo. O frágil equilíbrio — ele, elas, os clientes, a polícia, as senhoras da sociedade — era mantido a muito custo. Então veio a idéia do novo turno de trabalho, e a receita degringolou.

Primeiro foi a revolução das estrias. As damas da noite não são “da noite” por acaso: a penumbra é sua aliada contra os estragos do tempo e das circunstâncias. Todos os gatos são pardos, todas as putas são belas. O cliente as encontra no escuro, no escuro caminham juntos até o hotel, num quartinho escuro consomem o ato rapidamente, e eis duas pessoas satisfeitas: o homem que aliviou a pressão, a mulher que prestou um serviço e recebeu seu pagamento. Equilíbrio, pensa Zelão agora, é o segredo de tudo. Mas durante o dia o equilíbrio se acaba: mais justas e brancas do que Deus, as calças transparecem celulites. Os tops mínimos favorecem os pneus e as cicatrizes de cesarianas. Um dia de atraso no retoque da tintura faz os cabelos brancos saltarem à vista de quem passa. Some-se a isso o perfil do homem moderno — um afeminado que deixou de gostar de mulher e passou a reparar em veadagens como estrias, celulite, culotes — e está formado o furdunço.

A primeira a reclamar foi Creuza, uma mulata já mais para os quarenta do que para os trinta. A cicatriz diagonal no colo é lembrança de uma navalhada precisa, aplicada como punição dez anos atrás. Zelão não se arrepende da navalhada: a crioula estava pedindo. Além do mais, largara a navalha no mesmo instante para levar a piranha até o hospital. Passou a noite segurando sua mão, enquanto ela chorava e pedia perdão. Ingrata. Ao notar que a luz do dia tornava impossível disfarçar a cicatriz, resolvera pedir, ou melhor, exigir uma reparação. Nos bons tempos, a reação imediata de Zelão seria aplicar outra navalhada e dar o assunto por encerrado. Mas os bons tempos já iam longe, então ele concordou em cortar sua comissão pela metade para bancar a cirurgia da moça. Um prejuízo danado, que Creuza tratou de multiplicar espalhando a história entre as colegas. Em pouco tempo, a principal atividade do cafetão era administrar os pedidos de lipoaspirações, peitos e beiços de silicone, apliques, depilações a laser, o diabo a quatro.

A cirurgia de miopia para Soraya foi a gota d’água. Um cliente preferencial, ela dizia, não gostava de mulher de óculos. Oras, indigna-se Zelão, que tipo de pederasta liga para esse tipo de coisa? Toda atividade em volta da profissão mais antiga do mundo é garantida pela pouca exigência dos homens. Zelão lembra-se da época da novela Pantanal. De uma hora para outra, todo mundo pirou de tesão na Juma, a mulher-onça. Aproveitando a onda, o agente passou a apresentar a maranhense Regina como “Oncinha do Pantanal”. A clientela enlouqueceu, e Regina voltou para o Maranhão rica e respeitada. O que ela tinha em comum com a atriz Cristiana Oliveira? Os cabelos longos, os olhos vesgos, e mais nada.

Bons e velhos tempos… Os homens de agora são todos umas bichas.

Os retoques, porém, foram só a primeira e mais inofensiva conseqüência da mudança. Depois de três meses, os arredores do fórum ostentavam um jardim mais belo e atraente: só tetas imensas e firmes, barrigas de tanquinho, bundas empinadas, coxas de cedro. Chegava a hora de colher os frutos de tanto investimento em estética. Ou pelo menos era o que ele, em sua inocência de benfeitor das putas, pensava. Porque elas, ah!, elas tinham outros planos.

Ora, elas trabalhavam à luz do dia. Os clientes eram atenciosos e tímidos. Os programas aconteciam de forma mais rápida — era necessário voltar ao escritório — e a rotatividade era maior. As ruas eram movimentadas. A polícia estava a postos. Em um cenário pacato assim, quem precisava de cafetão? Zelão acabou demitido por suas próprias protegidas.

E o pior é que não pode nem bater nas malditas. Porque agora, é claro, todas elas têm advogado.

Dezembro 5, 2008

Respeitáveis senhores

Ando querendo vender meu carro, então tenho peregrinado por agências de carros usados nos últimos tempos.

Bom.

O negócio é que ontem eu fui cobrir um evento na Assembléia Legislativa de São Paulo. A certa altura (uma palestra de fornecedores que não me interessava), fui dar uma volta pelo prédio. Bem legal, todo mundo devia ir lá. Tem relíquias da Revolução de 32, fotografias antigas e modernas de São Paulo, esculturas, pinturas, o diabo.

Mas os itens que mais me chamaram a atenção foram os digníssimos deputados estaduais.

(Afanei a agenda de votações da quarta-feira. O vice-presidente da casa tinha em pauta um projeto que institui o Dia do Capelão. Outra deputada queria instituir o Dia dos Clubes da Terceira Idade. A maior parte dos projetos mudava o nome de viadutos, trevos e rotatórias nas rodovias estaduais.)

Os deputados estaduais são senhores com olhinhos de verruma e personalidade de camaleão. Oferecem café e dizem “a casa é sua”. Abrem sorrisos sinceros, apertam sua mão com firmeza e olham dentro dos seus olhos, têm voz suave, dão piscadelas de cumplicidade, compartilham de suas opiniões e valores. Uma total franqueza, cuidadosamente ensaiada na frente do espelho.

São ótimos atores, os deputados estaduais. Assisti a uma sessão no plenário. Um deputado chamado Cido Sério (pelo que eu entendi, ele acaba de ser eleito prefeito de Araçatuba, talvez Araraquara) discursava para o plenário quase vazio. Apenas um deputado ouvia o discurso. Na mesa diretora, todo mundo conversava, inclusive o presidente, enquanto o Sério discursava. Acabou o discurso, o único espectador subiu à tribuna para louvar os feitos do Sério — que, na platéia, conversava com outro deputado recém-chegado, ignorando os elogios que o outro lhe dirigia lá de cima. Um outro entrou falando ao celular, foi até o fundo, depois saiu de novo. O Sério e seu companheiro saíram, o outro desceu da tribuna, o do celular subiu para discursar. Enquanto falava, o presidente deixou seu posto. O que discursava chiou, o presidente fez um sinal para ele, outro cara assumiu a cadeira do presidente. Depois do discurso, o próprio presidente subiu à tribuna para falar ao plenário vazio. Enquanto ele falava, o do celular avisava que voltaria a discursar em seguida. No painel, 93 deputados presentes, um licenciado, nenhum ausente.No plenário, ninguém. A conta não batia. Os oradores não ligavam: continuavam seus discursos como se estivessem diante de um auditório lotado.

Os deputados estaduais dariam excelentes vendedores de carros usados.

Dezembro 5, 2008

Opa

Eu criei este blog — com nome de piada interna da família — como parte de um trabalho para a disciplina Comunicação Comparada e Multimeios do quarto semestre do curso de jornalismo, Uninove, salve, salve. Vou colocar umas fotos por aqui, uns textos, algum áudio, essas coisas de faculdade. Pensei em fazer isso no meu blog original, mas acho que o professor não ia gostar.

Bom, sejam bem-vindos. E não perguntem nada: como é de hábito, ainda não sei no que isto aqui vai dar.